Pular para o conteúdo principal

Dois anos de espera







-- Você não pode fazer isso comigo!
-- Por favor, não torne as coisas mais difíceis, a minha decisão já está tomada.
-- Você ainda vai se arrepender.
Era uma promessa, mas o rapaz não sabia disso. Ele tinha uma vaga idéia do quanto era importante para ela e se aproveitava disso todos os dias. Ela, mesmo sabendo que estava machucando a si mesma, dedicou sua juventude e pureza àquele moço de olhos azuis e sorriso branco.
Agora ela estava ali, abandonada, traída e arrependida. Arrependimento era um sentimento ruim, ela sentia na pele e queria que ele também sentisse. Lembrou-se de como era pura e ingênua quando o conheceu, lembrou-se das promessas nas quais acreditou e de todas as fantasias que criou. Olhou-se no espelho e viu no que se transformara: Um objeto... usado, descartado e agora sem nenhum valor.
Ligou o computador buscando refúgio da vida real na vida virtual, onde poderia ser o que quisesse, inclusive uma moça pura novamente, que não conhecia a dor e o sofrimento de um abandono. Poderia ser uma isca fácil para pegar algum destruidor de sonhos desavisado pelas ondas da net.
Princesa_18 era perfeita. Bonita, inteligente, carismática e virgem. Os homens ficavam loucos com ela, queriam conhecê-la, ser o primeiro, acabar com todo aquele pudor que irradiava da garota. Em um mês acumulou admiradores de todo o Brasil, recebeu propostas de casamento, promessas de família com um casal de filhos, exatamente como ela sonhara um dia com ele. Começou a estudar cada um dos pretendentes, interligando todos eles, na esperança de entender os pensamentos de um homem, e chegou a pelo menos uma conclusão: Todos querem uma moça perfeitinha. Para quê? Isso ela ainda não descobrira, embora já tivesse tirado suas conclusões, diante da experiência que tivera com ele.
Passaram-se dois meses do fim. Ela, assediada pela internet, vê uma visita inesperada: Ele. Pseudônimo: Principe_22. Só poderia ser ele, seria muita coincidência um fake com a foto dele procurar justamente por ela.
Começaram a conversar. O papo inicial não era muito diferente dos outros admiradores.

Principe_22 diz: Eu já sofri muito nessa vida, estou procurando um amor verdadeiro, mas hoje em dia está muito difícil encontrar uma moça assim como você.
Princesa_18 diz: Assim como eu? E como eu sou?
Principe_22 diz: Mulher pra casar. E é isso que estou procurando.

Ela analisava cada vírgula da conversa, dava corda, se insinuava para ouvir as pérolas dele. E seu coração acelerava a cada declaração de amor. Acelerava de ódio, e de expectativa: Seria aquela a grande chance que estava esperando?
Quanto mais seu coração se endurecia, mais meiga e apaixonada a Princesa_18 parecia estar. Uma vez o Principe_22 fez uma revelação que ela jamais esqueceria: “Eu já amei muito uma menina, mas a troquei por outra em um momento de fraqueza, agora é tarde, ela já não me ama mais. Ela seguiu a vida dela e vou seguir a minha, mas aprendi a lição, nunca mais cometo o mesmo erro”.
Passou-se seis meses daquele primeiro contato virtual. Oito meses do fim. E o coração dela já se tornara uma pedra de gelo. Passava por ele na rua e era como se não conhecesse, trocara o número de seu telefone e o bloqueara em todas as redes sociais. Ele achava estranho, se sentia incomodado, mas seu coração agora estava acelerado pela princesa dos seus sonhos. Certa noite o Principe_22 declarou as seguintes palavras: “Eu espero o tempo que for preciso para você me amar”. E, por incrível que pareça, estava sendo sincero.
Quando fizeram um ano de contato virtual, o Principe_22 começou a pressioná-la para se conhecerem. Até então, não era difícil evitar o encontro, afinal, a Princesa_18 morava em uma cidadezinha do interior de um estado muito distante do Príncipe. Mas depois de um ano, o rapaz estava completamente apaixonado, disposto a fazer qualquer coisa por sua princesa, inclusive atravessar o país para encontrá-la.

Princesa_18 diz: Ainda não estou certa sobre isso.
Principe_22 diz: Mas por quê? Você não me ama?
Princesa_18 diz: Eu tenho medo.
Principe_22 diz: Você não precisa ter medo de mim, eu já disse que te amo e vou me casar com você. Eu faço qualquer coisa por ti, por favor, deixe eu te mostrar o quanto estou apaixonado por você.
Princesa_18 diz: Preciso de mais um tempo.
Príncipe_22 diz: Eu espero, mas preciso saber que você também me ama, ou que pelo menos posso ter alguma esperança contigo.

Ela olhou no calendário: O dia do pé na bunda. Voltou para o bate-papo:

Princesa_18 diz: E eu preciso saber se você realmente me ama a ponto de esperar até a data que eu marcar agora.

Tensão no ar. A data era significativa para ela, mas para ele parecia uma data comum, um sábado qualquer. A memória de um príncipe não é tão romântica como a de uma princesa.

Príncipe_22 diz: É muito tempo, mas estou disposto a esperar, só para que você não duvide do amor que sinto.

Ela ficou confusa com aquela declaração. Perguntou-se se ele estaria realmente apaixonado pela Princesa_18 e o gelo de seu coração deu uma leve estremecida com a dúvida. Todos os demais pretendentes da princesa já haviam desistido, mas o príncipe continuava ali, firme à espera de sua chance.
Durante os meses seguintes, príncipe e princesa viveram um grande amor virtual, ansiosos pelo momento de se encontrarem e finalmente poderem viver esse mesmo amor na vida real. Ele começou a juntar dinheiro para a viagem, vendeu a moto e o vídeo game de última geração, pesquisou tudo sobre a cidade de sua amada, desde local para hospedagem até possibilidades de emprego. Mas de todos os preparativos, o mais audacioso foi a compra das alianças e a gravação dos nomes.
-- Dependendo desse encontro, eu nem volto mais – disse ele a um amigo, dois meses antes da viagem. Ela ficou sabendo desse comentário e concluiu: Não era só um joguinho de conquista, ele realmente amava uma princesa que já tivera em seus braços, porém não existia mais.

Finalmente o grande dia. O Principe_22 avisara que não precisava buscá-lo na rodoviária, faria uma surpresa, e isso deixou o coração dela mais feliz, seria muito mais divertido fazer ele procurá-la no endereço, do que deixá-lo esperando na rodoviária.  Dois anos de espera. Ela só lamentava não estar lá para testemunhar o arrependimento que prometera um dia.
E ele de fato se arrependeu. Quando chegou à casa de portão branco e viu que ninguém conhecia sua princesa, um vazio enorme invadiu o coração dele. Ainda insistiu com os vizinhos, mostrou as fotos da princesa, mas ninguém nunca a havia visto em toda a cidade. Passou por uma ponte na volta para a rodoviária e pensou em jogar-se dali, dar cabo de sua vida, que não lhe servia para mais nada. Mas seu coração mandou que voltasse para casa, onde estava sua verdadeira princesa.
E lá estava ela: O olhar frio, o coração vazio de amor e nos lábios as palavras:
-- Eu disse que você se arrependeria.



 


  Bem, resolvi voltar ao blog já participando na BC em homenagem ao aniversário de 2 aninhos do Escritos Lisérgicos,  com o tema: Dois anos.



Comentários

  1. Val! Primeiramente, seja muito bem vinda de volta à blogosfera parceira (parceira sim, sempre, desde quando parceria tem validade? rs).
    Sua participação foi muito interessante, um tapa na cara de quem julga as pessoas, trai sem pensar e depois, quando se arrepende, pode ser tarde.
    E quantos príncipes e princesas não estão por aí desconhecendo o valor da pessoa que está ao seu lado?
    Eu gostei muito do desenvolvimento do texto, envolvendo o contato cibernético. Não sei se leu, mas escrevi uma estória semelhante acerca dos contatos cibernéticos, quando quiser ler, procure pelo título "O que os olhos não veem, o coração não ouve".
    Foi um presente de aniversário para o Lisérgicos o seu retorno.
    Muito obrigado por reestrear na comemoração de dois anos e, principalmente, por comemorar comigo.
    Abraço.

    => CLIQUE => ESCRITOS LISÉRGICOS...

    ResponderExcluir
  2. Oi Val
    Muito bom amiga! Vc não enferrujou nesse tempo que ficou parada kkkkkkk. Que texto maravilhoso que me prendeu do começo ao fim. Como diz meu filho Daniel, o príncipe se deu mal kkkkk.
    Bjos.

    ResponderExcluir
  3. Olá, querida
    É bom a gente estar com os pés no chão porque o virtual pode nos trair muito... tenho visto que é assim... mas acredito que há exceção e tenho visto coisas lindas acontecerem também...
    Meu tio e tia se casaram há 22 anos e vivem super bem através de um contato postal (não tinham acesso à net)... Mas marcaram de se encontrar pela cor da roupa e local... rs... Ele me diz sempre: quem não arrisca, não petisca!!!
    Bjm de paz e pascal

    ResponderExcluir
  4. Olá Valquíria, menina, vc arrasou! Que conto maravilhoso, eu amei. Parabéns e seja bem vida, já que vou disse ter passado um tempo fora do ar. Eu também estou participando, Um bj e sucesso.
    => Gritos da alma
    => Meus contos
    < => Só quadras

    ResponderExcluir
  5. Oi Valquíria,
    muito bem engendrada esta volta por cima.Uma vez princesa, sempre princesa__ não perde a majestade na adversidade.Teu conto tem muito de verdade.
    Parabéns pela participação.
    Um bjo,
    Calu

    ResponderExcluir
  6. Val, seu texto ficou bem atual, o mundo está cada dia mais virtual... parabéns pela participação. abraços

    ResponderExcluir
  7. Oi Valquíria
    Seu conto ficou fantástico, digno de uma excelente escritora que você é.
    Parabéns
    Beijos
    Lua Singular

    ResponderExcluir
  8. Uma boa história de vingança, do tipo servida bem fria.

    Excelente, muito bem redigido. Parabéns!

    ResponderExcluir
  9. Oi.. nossa o texto ficou perfeito..
    Eu adorei.. me prendeu do início ao fim..
    Essa BC do Chris está maravilhosa né?
    Ele merece todo esse nosso carinho.. é uma pessoa espetacular..

    Um super beijo e uma noite linda..
    Sheila

    ResponderExcluir
  10. Olá Val.
    Amei o seu texto, fiquei presa a ele, curiosa por um final.
    Não se deve brincar com o amor de uma mulher. Parabéns.
    Beijinhos.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Que bom que você leu o post até o final, sinal de que não era tão chato assim, neh? Seu comentário é muito importante para mim, não saia sem deixar um Oi, para eu saber quem veio me visitar. Sempre que posso, retribuo as visitas. Bjokas da Val!

Postagens mais visitadas deste blog

Blogagem Coletiva - A última folha de papel

Olá, pessoas queridas do meu coração blogosférico!!! Hoje vou participar correndo de mais uma Blogagem Coletiva no blog Café entre Amigos, da Patrícia Galis, esse aqui ó . O tema é: “O que escreveria na última folha de papel em branco do mundo?” Mas antes, quero dizer (rapidinho) que essa semana eu tive meio que uma sorte virtual das grandes!!! Fui sorteada em dois blogues parceiros: Um sorteio eletrônico no Escritos Lisérgicos do Chris, no projeto Uma Imagem, 140 caracteres e, olha só, gente... já fui sorteada na minha primeira participação do blog Entre Livros e Sonhos , da Alê Lemos (nesse fui sorteada pelo modo “analógico”, como ela disse hehe). Agradeço desde já a esses parceiros que me recebem com tanto carinho em seus espaços e me permitem interagir com esse mundo maravilhoso da Blogosfera. E agora, vamos à última folha de papel em branco? Bem, fiquei me perguntando o seguinte: Se esta é a última folha em branco, o que aconteceu com as outras? Por que ...

Eu e meus concursos publicos - Um hobby tao estranho assim?

Gostar de estudar sempre foi uma das minhas características mais marcantes. Desde pequena era apaixonada por leitura, e no ensino médio, o que parecia ser um sacrifício sem fim para a maioria dos meus colegas de classe, para mim era algo estranhamente prazeroso. Nem queria ser CDF, não me importava com boas notas, tudo isso era consequência da minha curiosidade, vontade de saber mais das coisas. Claro que, como toda adolescente que se preze, tive meu momento de rebeldia - Eh, podem acreditar, eu não fui 100% sensata como hoje em toda a minha vida, aliás... quem disse que sou 100% sensata hoje em dia? Mas enfim... fiquei dois anos sem estudar (esse foi meu ato rebelde tá? Nada de sexo, drogas e rock'n roll, minha mãe me mataria, hehe) e depois tive que correr atrás do prejuízo. O mundo dos concursos públicos entrou na minha vida com 17 anos. Estava terminando o ensino médio, e uma amiga de minha mãe me incentivou a fazer a prova dos Correios - o que me fez lem...

Ultima carta ao seu eterno amor

Minha primeira participação no projeto Bloinquês, na categoria cartas   Volta Redonda, 23 de março de 2012. Meu Querido Estou escrevendo esta carta com as mãos trêmulas e o coração em frangalhos, tendo a certeza de que não verei sua reação ao lê-la, pois quando isso acontecer, já não estarei deitada em nossa cama a tua espera. Foram cinco anos, não é? Cinco anos de amor, de dedicação e entrega total, mas que infelizmente chegou ao fim. Desde que nos conhecemos, temos vivido um para o outro e anulado nossas próprias vidas, nossos sonhos e planos para o futuro. O amor que dedicamos um ao outro não cabe nessas poucas linhas, mas você sabe da dimensão dele e também de suas inevitáveis consequências, não sabe, meu amor? Ontem te vi chorando por teu filho, que você não pode ver por minha causa. Sei que você chora por se sentir fraco e incapaz de tomar uma decisão definitiva com relação à sua ex esposa. E com isso sei que ela também chora por não te ter, e eu também choro por estar c...